Evento realizado pela Embrapa e Irpaa evidencia a quebra do paradigma do “Combate à Seca”‏


“Bastante diferente daquela seca de 82, com a chegada dessas novas tecnologias adequadas de Convivência com o Semiárido, facilitou, melhorou bastante, porque não tivemos aquela migração e também o pessoal não passou tanta necessidade”, relata Seu José Albino Batista (Zé da Paz), agricultor do município de Andorinha (BA). Ele faz referência às mudanças ocorridas ao longo dos anos a partir do enfrentamento à “indústria da seca”, largamente explorada pelos governos e pela mídia brasileira durante décadas.

A diferença sentida por Seu Zé da Paz ao comparar a seca da década de 1980 com a estiagem prolongada destes últimos anos é resultado de um novo paradigma que começou a ganhar força a partir de 1990: a Convivência com o Semiárido, uma lógica de desenvolvimento que considera o clima, os aspectos sócio-culturais e direitos humanos como base para a vida no Semiárido. “A nossa região semiárida é caracterizada pela irregularidade das chuvas no tempo e no espaço geográfico. Estudos concluíram que as secas são previsíveis.

Passamos a entender que as secas são cíclicas, ou seja, tem a possibilidade de a cada 26 anos esta região passar por uma grande seca”, explica Vanderlei Menezes, colaborador do Irpaa. Hoje a Convivência com o Semiárido é pautada inclusive pelos governos dos estados e federal. Contudo, para provocar a desconstrução da lógica do “Combate à Seca” foi necessário o esforço de diversas organizações da sociedade civil, a exemplo do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), o estudo e aprimoração de técnicas desenvolvidas pelos centros de pesquisa, como a Embrapa Semiárido, e, principalmente, a disposição das famílias agricultoras que acreditaram nesta proposta. “Muitos setores da sociedade, da academia e também de governos já considera a seca como um fenômeno climático e social que faz parte da realidade aqui da região. Então tem mudanças.”, afirma o pesquisador Roberto Marinho. 

Políticas Públicas garantem avanços 

Em Campo Alegre de Lourdes, no sertão baiano, famílias sertanejas hoje celebram a chegada de tecnologias sociais e do serviço público de assessoria técnica voltada para a Convivência com o Semiárido e com isso uma nova concepção de vida. O agricultor Raimundo Dias da Silva Santos vive em sua comunidade há 40 anos. Ele lembra a dificuldade que era manter a criação e as plantações de milho, feijão, mandioca, devido à carência de água na propriedade. Porém, essa realidade começou a mudar com a chegada da primeira cisterna para captação e armazenamento de água da chuva, (capacidade para 16 mil litros) o que garantiu a água da família e mais tarde a cisterna de produção (capacidade para 52 mil litros), água que é utilizada para cuidar dos canteiros produtivos. “Tem coentro, pimentão, tem outras coisinhas ... nós nem damos conta de consumir tudo, às vezes vendemos para quem não tem por aqui”, comenta o agricultor. 

Exemplos como este de Seu Raimundo Dias é apenas um entre milhares no Semiárido. A região hoje conta com o trabalho da Asa – Articulação do Semiárido brasileiro, que há 15 anos reúne organizações populares em torno desta discussão, partindo da luta pelo acesso e gestão da água como um dos princípios básicos para a vida digna no Semiárido. 

A Asa já implementou mais de 660 mil tecnologias de captação e armazenamento de água da chuva, o que impacta de forma positiva a vida de aproximadamente um milhão de famílias. Mas, para José Moacir dos Santos, colaborador do Irpaa, esta discussão em torno da seca requer um debate maior, que toque em questões estruturantes e até então tocadas de forma tímida pelo Estado brasileiro. “A gente precisa de políticas que desconcentrem a terra, desconcentrem a água e o conhecimento para plena Convivência com o Semiárido”, aponta. “Aqui no nosso Semiárido não falta chuva, falta é justiça mesmo, local de armazenamento de água pra que as pessoas sejam beneficiadas”, argumenta Seu Zé da Paz ao ressaltar os avanços hoje constatados nas comunidades e municípios que adotaram ações como construção de cisternas, aguadas apropriadas e outras tecnologias como prioridade. Roberto Marinho concorda que a privatização da água ainda contribui para esta visão da seca como algo catastrófico, apesar dos avanços, embora acredite que hoje não se pode mais falar em seca, inclusive porque “não é uma situação de falta d'água, é uma situação de injustiça”, reforça. 

Toda esta discussão é base para realização da 6ª Edição da Feira SemiáridoShow, que irá possibilitar, para além das discussões teóricas, a exposição de tecnologias e práticas que garantem a viabilidade da produção apropriada ao clima semiárido. O evento, que este ano traz como tema “Territórios, água e agroecologia: bases para vida no Semiárido”, acontece de 20 a 23 de outubro e é resultado de uma parceria entre a Embrapa e o Irpaa. As iniciativas apresentadas na Feira podem ser replicadas em outras regiões do Semiárido. O evento acontece na Embrapa Produtos e Mercados, BR 428, Km 148, em Petrolina – PE.
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Postado por André Luiz

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