População pernambucana se reúne para dizer não a usina nuclear


Desde 2010, a população de Itacuruba-PE vive uma situação de angústia provocada pela possibilidade da construção de uma usina de energia nuclear no município, que fica às margens da Barragem de Itaparica, construída no Rio São Francisco. Em 2011, após o acidente na usina de Fukushima, no Japão, a discussão perdeu força, para alívio da população. No entanto, a usina em Itacuruba voltou a ser parte do debate desde o lançamento do plano de energia do Governo Federal.
Nos dias 05 e 06 de novembro, representantes da Regional Nordeste 2, órgão ligado à Conferência Nacional dos Bispos – CNBB, estiveram em Itacuruba e Floresta para ouvir a opinião da população local sobre o assunto. Quase todas as pessoas se colocaram contra a construção da usina. Após a escuta realizada na igreja matriz de Itacuruba, o grupo de bispos de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte se dirigiram para as margens do São Francisco, local onde, segundo as/os moradoras/es, está prevista a construção da usina.
Assim como a população local, o pesquisador doutor na área de energia e professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, Heitor Scalambrini também se colocou contra a geração de energia nuclear. “Nós somos contrários a essa proposta, já que o Brasil não precisa dessa energia”, declarou o professor que integra a Articulação Antinuclear Brasileira.
De acordo com Heitor Scalambrini, as usinas nucleares de Angra I e Angra II, no Rio de Janeiro, geraram apenas 2,5% de toda energia do país. Além disso, o professor apresentou dados que dão conta que a energia nuclear é quase cinco vezes mais cara que outras alternativas, como energia solar e eólica. Por fim, Heitor ainda chama atenção para o risco de acidentes, o que “seria desastroso para todo o Nordeste”, afirma.
As informações, trazidas por Heitor, deixaram cientes do perigo pessoas como dona Ozicleide dos Santos, agricultora do Povo Indígena Tuxá, de Itacuruba. Ela reside a aproximadamente um quilômetro do local previsto para a instalação da usina. Caso aconteça a instalação, a comunidade terá que ser expulsa de suas terras pela segunda vez, haja vista que isso já aconteceu durante a construção da barragem de Itaparica. “Não estamos nos sentindo bem com a usina nuclear, porque só traz tristeza para nós”, desabafa dona Ozicleide.
Assim como em outros casos de implantação de grandes empreendimentos, a proposta de uma usina nuclear em Itacuruba veio cheia de promessas de desenvolvimento e geração de emprego, algo que Dom Paulo Jackson, bispo de Garanhuns e Presidente da Regional Nordeste 2, da CNBB, conhece bem. Quando criança, o religioso viveu em São José de Espinharas-PB, onde há uma jazida de urânio. Segundo ele, a cidade recebeu pessoas de várias partes do mundo que iam até lá para mapear justamente o minério que é utilizado nas usinas nucleares.
Dom Paulo Jackson conta que por um tempo até houve a geração de empregos, porém o que mais marcou foram os problemas provocados pelos forasteiros. “Deixaram um rastro de alcoolismo, de famílias destruídas, de adultérios e de moças, meninas grávidas, gravidez na adolescência. O rastro do impacto social foi imenso”, aponta Dom Jackson.
O bispo classificou como “balela”, “aquilo que era prometido de mundos e fundos, de melhorias e de crescimento para a cidade, crescimento econômico, empregos. As promessas que foram feitas nunca foram cumpridas. Se eles não cumpriram em São José dos Espinhares, por que cumpririam aqui, em Itacuruba? ”, questiona o religioso.
Dom Jackson fez uma reflexão sobre os impactos do primeiro grande projeto que atingiu a população de Itacuruba: “A região aqui já foi vítima de um bmegaprojeto”, lembrou o bispo e questionou o cumprimento das compensações sociais, o que até hoje a população de Itacuruba não viu ser efetivado.
Na tarde do dia 05 e manhã do dia 06 foi realizado um seminário no Centro de Formação da Diocese de Floresta, que reuniu pesquisadoras/es, estudantes e membros de comunidades tradicionais da região de Floresta. O evento foi organizado pela Diocese de Floresta e a Regional NE 2, da CNBB.

Texto e Fotos: Comunicação Irpaa
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